Sob os rufos dos tambores da Guarda Nacional Francesa, o Grande Prêmio Científico da Fundação Louis D., do Instituto da França, em Paris, foi concedido nesta quarta-feira (8) a Marcelo Viana, diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro. Foi a primeira vez que um brasileiro recebeu a honraria, considerada como a maior da França.

Reportagem de Sarah Bazin

Viana divide a láurea com outro cientista, o francês François Labourie. Ambos basearam suas pesquisas na área da geometria e sistemas dinâmicos. Juntos, os cientistas receberão um total de €450 mil (equivalente a R$1,8 milhão). A regra do prêmio diz que 90% do valor concedido ao ganhador deve ser direcionado a pesquisas na área.

Marcelo Viana diz que este momento “constitui um reconhecimento, no mais alto nível, da excelência do trabalho realizado no IMPA pelo grupo de Sistemas Dinâmicos. Que esse reconhecimento venha da França, sem dúvida uma das potências científicas do planeta, torna ainda maior o seu peso”. Ele diz ainda que os recursos recebidos permitirão o aprofundamento das pesquisas realizadas pelo IMPA, o início de novos e importantes temas de investigação, além de um programa de colaboração científica entre o Brasil e a França.

Ensino deveria ser mais incentivado, diz Viana

Para Viana, é imprescindível que a matemática no Brasil seja mais valorizada. Segundo ele, o sistema de ensino da matemática no país é “catastrófico, nem sequer 10% dos alunos que são aprovados no ensino médio aprendem o mínimo de matemática que deveriam ter aprendido”. Apesar do Brasil ter alcançando o nível 4 do total de 5 da União Matemática Internacional, ele diz que muita coisa ainda precisa mudar na forma de ensino.

Para ele, um dos problemas é falta de incentivo das famílias em relação à matéria, que muitas vezes é tida como tabu entre os estudantes. “Existe uma subvalorização da matemática, e isso é muito grave, o papel da família para reverter esse quadro é fundamental. É necessário incentivar a criança e o jovem, e não desmotivar”, diz Viana.

Para matemático, o professor deve ser levado em conta

Viana diz que o Brasil precisa tratar a matemática como uma prioridade, e passa por aí a qualificação do professor. “Primeiro o professor precisa saber matemática. Pode parecer óbvio, mas o professor precisa saber aquilo que vai ensinar”. Hoje em dia no Brasil, ele acrescenta, “uma minoria dos professores são formados em universidades públicas, a grande maioria chega de universidades particulares ou do ensino a distância”.

Além de qualificação, o professor também precisa de qualidade de trabalho e de vida. Para Viana não é possível ter um professor trabalhando mais de 70 horas por semana para poder complementar sua renda. É necessária a valorização do profissional.

“A matemática gosta que você brinque com ela. Não é para ficar parado, você tem que ter uma posição ativa. Para isso o professor tem que ter o conhecimento e a capacidade de despertar esse talento no aluno, e tem que estar descansado para fazer isso, o que não é fácil”, disse.

Biênio da matemática no Brasil: 2017 e 2018

Em 2017, o Brasil vai sediar pela primeira vez a Olimpíada Internacional de Matemática. No ano seguinte, em 2018, o Brasil recebe o Congresso Internacional de Matemática, o mais importante da área realizado desde o século 19, que concede as Medalhas Fields, consideradas o “Nobel da Matemática”. É a primeira vez que o Congresso acontecerá no hemisfério Sul

Esse está sendo caracterizado como o Biênio da matemática no Brasil, e será aproveitado para fazer atividades que aproximem a matemática dos brasileiros. “Queremos chegar a um público que nunca ousamos chegar antes”, diz Viana.

RFI